Imagem Corporal e Câncer – Repercussões


Introdução

O câncer compreende um conjunto heterogêneo de etiologias caracterizado pelo crescimento celular desordenado, invasão tecidual e potencial metastático, cujas manifestações clínicas e terapêuticas impõem alterações anatômicas, funcionais e sensoriais severas. Essas modificações afetam substancialmente a percepção e a satisfação com a imagem corporal, desencadeando sofrimento psicológico em dimensões estéticas, funcionais e sexuais.


Epidemiologia e Alterações Sistemáticas da Neoplasia

O câncer abrange mais de cem patologias distintas, caracterizadas pela proliferação celular incontrolável e agressiva, culminando na formação de neoplasias malignas. A classificação dessas enfermidades varia conforme a linhagem celular de origem — como os carcinomas, derivados de tecidos epiteliais, e os sarcomas, oriundos de tecidos conjuntivos —, além de sua taxa de replicação e capacidade de infiltração em estruturas vizinhas ou distantes, processo denominado metástase.

Configurando-se como o principal problema de saúde pública global na atualidade, o câncer é responsável por 22,8% do total de óbitos decorrentes de doenças crônicas não transmissíveis, o que equivale a uma em cada quatro mortes nessa categoria.

A progressão da neoplasia e as intervenções terapêuticas subsequentes impõem um conjunto de alterações físicas ao indivíduo. Entre as modificações estéticas observadas, destacam-se a alopecia (perda de cabelos, cílios e sobrancelhas), variações na massa corpórea, estigmas cicatriciais e formações edematosas. Adicionalmente, ocorrem manifestações sensoriais, como quadros dolorosos e parestesias, além de disfunções orgânicas estruturais, a exemplo de disfagia, disartria e disfunção erétil.

A convergência dessas alterações físicas afeta de forma expressiva a percepção do indivíduo e sua satisfação quanto à própria imagem corporal, exercendo impacto negativo na qualidade de vida global. Observa-se a emergência de sofrimento psicológico clinicamente relevante em decorrência do comprometimento da aparência, da capacidade funcional e da dimensão sexual.

É fundamental fundamentar o cuidado na avaliação das atividades da vida diária e na integração de abordagens sociais que extrapolem o ambiente estritamente clínico, com vistas a analisar detidamente a vivência subjetiva dos indivíduos diagnosticados com neoplasias malignas, considerando seu nível de autonomia e a compreensão acerca do próprio estado patológico.

Em investigação clínica realizada na Alemanha com 531 indivíduos diagnosticados com múltiplos tipos de neoplasias, constatou-se uma redução estatisticamente significativa nos níveis de autoaceitação corporal, assim como menor índice de percepção de aceitação por parte do parceiro, independentemente do sexo biológico. Notadamente, mulheres diagnosticadas com neoplasias mamárias e ginecológicas apresentaram escores de autoaceitação sensivelmente inferiores quando comparadas àquelas com neoplasias viscerais.


Nuances Específicas dos Tipos de Câncer na Percepção Corporal

A literatura científica que investiga a imagem corporal no contexto oncogênico é constituída predominantemente por estudos com amostras exclusivamente femininas e focadas no câncer de mama. Consequentemente, subsiste uma lacuna de conhecimento quanto ao impacto do acometimento neoplásico na imagem corporal em homens e em acometimentos tumorais de outras topografias.

A mama possui um significado simbólico atrelado a construções sociais de feminilidade, atratividade, sexualidade e maternidade. Por essa razão, o diagnóstico e a abordagem terapêutica do câncer de mama representam potenciais geradores de trauma psicológico.

Em pacientes jovens, na faixa etária entre 18 e 40 anos, o desconforto com a imagem corporal desencadeia adaptações comportamentais e estratégias de enfrentamento desadaptativas. Entre estas, destacam-se o controle alimentar restritivo extremo, a prática compulsiva de exercícios físicos, a esquiva de contatos sociais e a busca ininterrupta por validação externa — fatores que culminam frequentemente em isolamento social e sofrimento emocional sustentado entre as sobreviventes.

A satisfação com a imagem corporal correlaciona-se de forma direta com a qualidade percebida do relacionamento interpessoal e conjugal em ambos os sexos. Durante o protocolo terapêutico, a necessidade de submeter o próprio corpo à manipulação por terceiros para a realização de procedimentos médicos e cirúrgicos favorece o surgimento de vulnerabilidade e constrangimento.

No público masculino, o manejo de cateteres visíveis atua como um marcador explícito da enfermidade, acarretando perda de autoconfiança, vergonha e a percepção do corpo como prematuramente envelhecido.

No âmbito do câncer de próstata — a neoplasia de maior incidência na população masculina —, o tratamento de privação androgenética induz alterações corporais e repercussões psicológicas análogas às vivenciadas por mulheres sob tratamento para o câncer de mama. Os pacientes relatam, frequentemente, distúrbios marcados por descaracterização dos traços masculinos, disfunção sexual e abalo da identidade de gênero.


Impacto Multimodal dos Tratamentos Oncológicos

As modalidades terapêuticas utilizadas no combate ao câncer compreendem intervenções cirúrgicas, quimioterapia (QT), radioterapia (RT), hormonioterapia (HT), imunoterapia e o transplante de medula óssea (TMO).

Intervenções Cirúrgicas

O manejo cirúrgico oncológico baseia-se na ressecção completa da lesão tumoral acompanhada de margem de segurança no tecido adjacente. Embora a remoção cirúrgica apresente maior eficácia no controle e na remissão da doença em estágios iniciais, a impossibilidade de ressecção total direciona o procedimento para a finalidade paliativa, focando na citorredução ou no alívio de sintomas que restrinjam a funcionalidade do paciente.

A terapêutica cirúrgica acarreta, em regra, alterações anatômicas irreversíveis, incluindo formações cicatriciais e mutilações/amputações. Tais desfechos trazem repercussões profundas para a imagem corporal, sobretudo em casos de neoplasias mamárias, de cabeça e pescoço, de canal anal e lesões colorretais submetidas ou não à confecção de estomas.

Em indivíduos submetidos a ressecções cirúrgicas em decorrência de neoplasias na cavidade oral, os quadros depressivos e a ansiedade frente ao convívio social impactam negativamente a imagem corporal, a atratividade percebida e a insatisfação estética. Por sua vez, pacientes submetidos à gastrectomia decorrente de câncer gástrico apresentam alterações marcantes na composição corporal, perda ponderal severa, disfunções gastrointestinais e prejuízos psíquicos, com maior intensidade no primeiro ano pós-operatório.

Nos tumores de cabeça e pescoço, o desenvolvimento de distúrbios da imagem corporal relaciona-se à associação entre radioterapia e ressecções cirúrgicas em regiões faciais e cervicais, devido à alteração visível da morfologia. Quanto maior a extensão e a radicalidade da ressecção cirúrgica, mais elevados são os índices de insatisfação com a aparência.

No âmbito do câncer de mama, a insatisfação com o próprio corpo e a ausência de desejo de intimidade podem persistir mesmo após a realização de procedimentos reconstructivos. A nova conformação anatômica pode ser percebida como estranha, comprometendo a identidade pessoal, sexual e o papel social feminino ao gerar a sensação de despersonalização corporal. Desse modo, diante da indicação de mastectomia, a reconstituição mamária imediata é recomendada com o intuito de mitigar o transtorno da imagem corporal.

Quimioterapia (QT)

A quimioterapia antineoplásica emprega agentes farmacológicos diversos administrados por vias variadas (oral, intravenosa, intramuscular, intratecal, subcutânea e tópica), em regime ambulatorial ou hospitalar, sob posologias customizadas.

Os regimes quimioterápicos são pilares do tratamento oncológico. Os efeitos adversos decorrem da citotoxicidade não seletiva sobre tecidos saudáveis de alta taxa de proliferação celular, como os folículos pilosos, o trato gastrointestinal e o sistema nervoso. A alopecia induzida por quimioterápicos configura um dos efeitos colaterais de maior impacto psicológico, afetando gravemente a qualidade de vida, a autoestima e a percepção estética, ao associar a imagem do paciente à fragilidade da doença.

Ademais, a necessidade do implante de cateteres venosos centrais de longa permanência altera a silhueta corporal. Ainda que a implantação ocorra predominantemente no plano subcutâneo, constata-se impacto na autoimagem e nas escolhas do vestuário.

As oscilações ponderais constituem outro desfecho associado ao tratamento quimioterápico. Pacientes com câncer de mama sob esquemas de QT frequentemente apresentam ganho de massa corporal, em virtude da combinação de antineoplásicos com corticosteroides, os quais favorecem a retenção hídrica e o acúmulo de adiposidade, podendo culminar em sobrepeso ou obesidade. Mulheres submetidas à QT apresentam um risco 65% superior de ganho ponderal (variando tipicamente entre 1 kg e 5 kg) quando comparadas àquelas tratadas exclusivamente por RT ou hormonioterapia.

Na população pediátrica e juvenil, indivíduos do sexo feminino manifestam maior insatisfação com a imagem corporal em relação aos do sexo masculino. Tal insatisfação é igualmente mais pronunciada em crianças mais velhas, com maior grau de escolaridade e submetidas a alterações frequentes na aparência. Em adolescentes e adultos jovens, as alterações da imagem corporal são mediadas substancialmente pela apreensão quanto ao julgamento e à avaliação de terceiros.

Radioterapia (RT)

A radioterapia fundamenta-se no emprego de radiação ionizante voltada à erradicação do tecido tumoral ou à interrupção de sua capacidade de proliferação.

As complicações actínicas decorrentes da RT incluem radiodermite, reações eritematosas, formações edematosas, fibroses cicatriciais e lesões ulceradas, que alteram a estética cutânea e interferem na imagem corporal do paciente. Essas modificações morfológicas associam-se ao desenvolvimento de ansiedade de aparência social, definida como o estado de apreensão do indivíduo diante da possibilidade de avaliação negativa de sua estrutura corporal por terceiros.

Em pacientes com neoplasia mamária, a quimioterapia exerce impacto negativo predominante na imagem corporal a curto prazo. Em contrapartida, a radioterapia adjuvante induz prejuízos contínuos e cumulativos à percepção corporal a longo prazo.

Nos tumores pélvicos em ambos os sexos, a RT pode ocasionar disfunções gastrointestinais, vesicais e sexuais. Essas alterações rebaixam os níveis de satisfação com a imagem corporal, mesmo na ausência de modificações estéticas externas visíveis.


Referências Bibliográficas

  1. KACHANI, Adriana Trejger; JACOBSOHN, Patricia Gipsztejn (Org.). Imagem corporal na prática clínica. Barueri: Manole, 2025.

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