Imagem Corporal e Transtorno por Uso de Substâncias (TUS)
Introdução
O transtorno por uso de substâncias (TUS) e as alterações da imagem corporal apresentam uma intrincada relação bidirecional mediada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. A insatisfação e a distorção da autoimagem atuam frequentemente como gatilhos para o consumo de substâncias psicoativas (SPA) direcionadas à modificação estética, enquanto o uso prolongado dessas substâncias promove restrição vivencial, instabilidade psíquica e desregulação emocional.
Aspectos Epidemiológicos e o Uso de Substâncias Psicoativas (SPA)
O constructo da imagem corporal integra de forma ativa a consolidação da identidade individual e correlaciona-se diretamente ao nível de satisfação pessoal. Globalmente, as estimativas de prevalência do transtorno por uso de substâncias (TUS) orbitam em torno de 2,2%, sendo o álcool identificado como a substância de maior prevalência de dependência no cenário nacional.
No âmbito das comorbidades associadas ao TUS, nota-se uma prevalência acentuada no gênero feminino. Contudo, observa-se epidemiologicamente que ambos os gêneros apresentam uma trajetória de ascensão na prevalência do consumo de SPA com a finalidade expressa de alteração da imagem corporal, categoria conceituada como “drogas da imagem corporal”.
O Impacto das Substâncias Não Prescritas na Estética Corporal
O transtorno decorrente do uso de substâncias não prescritas demanda rigorosa atenção clínica, visto que uma parcela significativa desses compostos é consumida com o propósito deliberado de eliciar modificações nos padrões corporais. Esse comportamento visa o alcance de um constructo corpóreo idealizado, manifestando-se por meio da supressão do apetite e consequente redução ponderal via administração de anfetaminas, ou por meio do incremento de massa magra via utilização de esteroides anabolizantes. Não obstante a finalidade estética primária, a busca pela adequação antropométrica por intermédio de SPA culmina em severa instabilidade psíquica.
A insatisfação com a imagem corporal exibe uma robusta associação com os transtornos alimentares (TA), com ênfase nos quadros em que há a manifestação de distorção perceptiva. Evidências científicas demonstram que a distorção da imagem corporal atinge uma taxa de até 48% em populações do gênero feminino diagnosticadas concomitantemente com TUS e TA.
Fisiopatologia e Manifestações Clínicas do TUS
O desenvolvimento do TUS possui um caráter multifatorial clássico, no qual convergem determinantes biológicos, psicológicos e sociais. O estado agudo de intoxicação (embriaguez) é frequentemente caracterizado por quadros de euforia, indução de prazer e relaxamento, os quais traduzem uma percepção subjetiva de plenitude para o indivíduo.
O TUS consolida-se por meio da reiteração crônica desse estado de intoxicação e subsequente desarticulação psíquica. Este ciclo continuado resulta no estreitamento progressivo e na restrição do campo vivencial do paciente. Consequentemente, a apresentação clínica da pessoa com dependência de SPA é tipicamente demarcada por um repertório de atividades cotidianas restritas e por um quadro de esvaziamento existencial.
Determinantes Dinâmicos da Imagem Corporal e Vulnerabilidades
A imagem corporal de um indivíduo configura-se como um constructo essencialmente dinâmico, influenciado por variáveis subjetivas e por flutuações cronológicas e geoespaciais inerentes à idade e ao contexto de inserção do sujeito. No que tange à herdabilidade, dados indicam que aproximadamente 50% dos comportamentos alimentares podem ser transmitidos de forma transgeracional.
Os afetos e sentimentos vinculados a uma autoimagem insatisfeita ou marcadamente negativa são capazes de deflagrar instabilidade do humor, desregulações de ordem emocional e episódios de impulsividade comportamental, fatores que se correlacionam diretamente com o desencadeamento do uso de SPA.
Adicionalmente, a exposição prolongada a mídias sociais por indivíduos jovens associa-se à internalização de um biotipo idealizado de maior magreza, induzindo a elevados níveis de preocupação com o próprio corpo e a distúrbios emocionais. Paralelamente, a vivência frequente em ambientes como festas e eventos sociais atua como um vetor de influência tanto no consumo de SPA quanto na hipervalorização da imagem corporal como mecanismo central de comunicação interpessoal.
Referências Bibliográficas
- KACHANI, Adriana Trejger; JACOBSOHN, Patricia Gipsztejn (Org.). Imagem corporal na prática clínica. Barueri: Manole, 2025.
