Imagem Corporal e Especificidades de Gênero na Prática Clínica
Introdução
A imagem corporal é influenciada por construções socioculturais que moldam ideais estéticos distintos entre mulheres e homens. Enquanto o público feminino frequentemente associa a identidade pessoal ao alcance de um biotipo magro e longilíneo, a população masculina tende a canalizar suas preocupações para a hipertrofia muscular como mecanismo de afirmação do papel social de gênero. A avaliação clínica da insatisfação corporal deve, portanto, transpassar estigmas e ser conduzida independentemente do sexo atribuído ao nascimento.
Influências Socioculturais e Construção da Identidade Corporal
Existe um estereótipo consolidado acerca da imagem corporal feminina, no qual a insatisfação com a própria anatomia é frequentemente encarada como um sentimento normativo nesse grupo. Contudo, dados empíricos demonstram que influências socioculturais — provenientes de pais, pares e meios de comunicação — exercem um impacto significativo na internalização de ideais estéticos, em processos de comparação social e no desenvolvimento de insatisfação corporal tanto em mulheres quanto em homens brasileiros. Diante desse cenário, torna-se essencial rastrear e analisar a presença do descontentamento corporal na anamnese, independentemente do sexo atribuído ao nascimento.
As discrepâncias no padrão de ideal corporal esperado representam uma das diferenças mais expressivas entre os sexos, repercutindo diretamente na manifestação da imagem corporal. Historicamente, a busca por um corpo extremamente magro, de porte longilíneo e com reduzido percentual de gordura consolidou-se como o padrão ideal para o sexo feminino. Parte substancial dessa busca decorre do fenômeno no qual o organismo físico é vinculado como representação direta do próprio self; assim, a identidade das mulheres mostra-se diretamente dependente do nível de aproximação com um estereótipo ou biotipo corporal específico. Esse dinamismo é favorecido pela ausência de uma definição identitária consolidada, o que impulsiona a busca por modelos ou referências externas para ancorar o processo de construção do eu.
Particularidades do Público Masculino e a Teoria da Masculinidade Precária
No que tange aos indivíduos do sexo masculino, a literatura especializada aponta para uma elevada preocupação com a massa muscular, acompanhada por um afeto negativo direcionado ao próprio corpo, sustentado pela crença central de insuficiência de volume ou muscularidade.
A investigação por meio de revisão sistemática com metanálise evidencia que a preocupação com o volume muscular guarda relação direta com constructos de masculinidade. Observou-se que as associações mais estreitas situam-se em investigações que correlacionam o estresse de masculinidade às preocupações com o desenvolvimento muscular. Tais achados dão suporte à premissa de que a busca exacerbada pela muscularidade atua como um meio de compensação ou reforço diante de uma percepção de ameaça à virilidade, em consonância com a teoria da masculinidade precária. Dessa forma, as expectativas sociais atribuídas ao homem, bem como as crenças ligadas à força e à virilidade, oferecem subsídios teóricos para explicar, ao menos parcialmente, a sobreelevação da busca pela hipertrofia muscular na população masculina.
Referências Bibliográficas
- KACHANI, Adriana Trejger; JACOBSOHN, Patricia Gipsztejn (Org.). Imagem corporal na prática clínica. Barueri: Manole, 2025.
