Lipedema: Fisiopatologia, Diagnóstico e Abordagens Terapêuticas
Introdução
O lipedema é uma condição crônica que afeta principalmente as mulheres, com uma prevalência estimada em cerca de 10% da população feminina (1). Caracteriza-se por um acúmulo anormal e simétrico de gordura, principalmente em regiões glúteas, coxas, joelhos e pernas, resultando em uma desproporção entre a parte inferior e superior do corpo. Pode, contudo, comprometer também os braços, mas poupa mãos, pés e o tronco (1).
Fisiopatologia do Lipedema
Caracterização Clínica e Aspectos Epidemiológicos do Lipedema
O lipedema configura-se como uma condição médica crônica e de curso progressivo que acomete especificamente o tecido conjuntivo frouxo, sendo clinicamente caracterizada pelo crescimento anormal, simétrico e doloroso do tecido adiposo nos membros. Esta afecção manifesta-se predominantemente em mulheres durante fases de intensas flutuações hormonais, o que denota uma correlação causal com a predominância estrogênica. Uma das principais barreiras no manejo clínico reside no fato de que este tecido adiposo específico exibe baixa responsividade às intervenções terapêuticas convencionais, tais como restrição dietética e programas de exercícios físicos. (4)
No cenário epidemiológico nacional, estima-se que o lipedema afete 12,3% da população feminina no Brasil. Entre as manifestações sintomatológicas e queixas clínicas mais prevalentemente relatadas pelas pacientes, destacam-se: (4)
- Incremento expressivo da sensibilidade álgica ao toque;
- Propensão ao desenvolvimento de hematomas espontâneos ou sob traumas mínimos;
- Fadiga crônica;
- Sensação de peso e sobrecarga nos membros acometidos;
- Quadros de dor persistente.
Embora a classificação nosológica do lipedema não estabeleça uma correlação linear direta com a severidade dos sintomas álgicos, as pacientes estratificadas nos estágios 3 e 4 da doença tendem a enfrentar repercussões e desafios de ordem física, emocional e social substancialmente mais intensificados. Ademais, esses estágios avançados cursam com uma maior predisposição ao desenvolvimento de comorbidades e condições associadas secundárias, a saber, o linfedema e a obesidade.(4)
A causa exata do lipedema ainda é desconhecida (1). No entanto, diversas hipóteses têm sido propostas para explicar sua patogênese.
Influência Genética e Hormonal
Acredita-se haver uma forte influência genética, visto que 60% dos pacientes relatam pelo menos um parente de primeiro grau com a condição (1). A manifestação inicial do lipedema geralmente ocorre em períodos de mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e climatério. Essa característica marcante, a distribuição desproporcional de gordura nas extremidades com um tronco “magro” e mãos e pés não afetados, sugere que o lipedema possa ser uma condição mediada por estrogênio (1). Propõe-se que essa desordem resulte de alterações genéticas no padrão de distribuição dos receptores de estrogênio (ER) alfa (α) e beta (β) no tecido adiposo branco das áreas afetadas, com redução dos ER-α e um aumento na expressão de receptores β (1).
Ainda não está claro se as células de gordura subcutânea se tornam mais numerosas (hiperplasia) ou mais largas (hipertrofia) (1). Estudos envolvendo a gordura aspirada de pacientes com lipedema sugerem que a desordem tem início com mudanças nos estágios iniciais da diferenciação de células na adipogênese (1).
Disfunção Microvascular e Linfática
Outra hipótese fisiopatológica envolve a disfunção microvascular primária no tecido linfático e nos capilares sanguíneos (1). Acredita-se que isso seja devido a um estímulo hipóxico provocado pela expansão excessiva do tecido adiposo, levando à destruição endotelial, disfunção e, portanto, ao aumento da angiogênese (1).
Um problema mecânico também pode ser responsável pela perturbação da drenagem linfática (1). O dano capilar é uma causa proposta para a tendência aumentada de formação de hematomas e petéquias (1). O aumento da permeabilidade capilar leva ao extravasamento de proteínas para o compartimento extracelular (“capillary leak”) e, consequentemente, ao edema tecidual (1). A princípio, o fluido adicional no espaço intersticial pode ser compensado pelo aumento da drenagem linfática; no entanto, à medida que a desordem progride, a capacidade de drenagem dos vasos linfáticos é excedida, resultando em insuficiência (1).
O efeito da hiperpermeabilidade capilar é amplificado por anormalidades patológicas em grandes vasos sanguíneos. A rigidez da aorta, descrita em pacientes com linfedema, pode promover remodelação vascular prematura e hipertensão local (1). Além disso, há também uma desregulação do reflexo veno-arterial (VAR), que protege o leito capilar da elevação local da pressão hidrostática por constrição das arteríolas. Isso, combinado com o extravasamento capilar devido à microangiopatia, promove a formação de edema e hematoma (1).
Consequências e Complicações
Os estágios avançados do lipedema estão associados a diversas sequelas. Uma carga de fluido que exceda a capacidade do sistema linfático pode causar linfedema secundário (“lipo-linfedema”) em qualquer estágio da doença (1). A irritação mecânica de grandes depósitos de gordura perto das articulações pode macerar a pele; e tais depósitos nas coxas e ao redor das articulações dos joelhos também podem interferir na marcha normal e causar artrite secundária (1). Além disso, efeitos secundários incluem transtornos emocionais e diminuição da autoestima (1).
Diagnóstico do Lipedema
O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. Observa-se o acúmulo de gordura em região glútea, coxas, joelhos e pernas, determinando uma desproporção entre a parte inferior e superior do corpo (1). Um sinal típico é o acúmulo de gordura na região do tornozelo, conhecido como sinal do manguito, onde a gordura para abruptamente (1).
Entre as queixas mais frequentes estão:
- Dor (principalmente à palpação) (1).
- Dificuldade de mobilidade (1).
- Edema (inchaço) (1).
- Hematomas frequentes (1).
Pode haver associação com outras doenças, como insuficiência venosa crônica, linfedema e obesidade (1). Geralmente, pessoas diagnosticadas com lipedema têm histórico familiar da condição (1). É importante questionar sobre o início e a progressão do transtorno, pois isso pode auxiliar na diferenciação entre lipedema e obesidade (1). Mesmo em pessoas obesas, sintomas como dor e tendência a hematomas são bons indicadores de que o lipedema também está presente (1).
Testes laboratoriais para avaliação da função renal, hepática e para avaliação de hipotireoidismo devem ser realizados (1). Além disso, dislipidemia e resistência à insulina também devem ser avaliadas (1). É crucial ressaltar que o lipedema é uma condição rara, sendo necessário o diagnóstico diferencial, excluindo outras doenças que podem causar edemas de membros inferiores, como o linfedema (3).
A sensibilidade tecidual característica do lipedema pode ser verificada com o teste de pinça, que muitas vezes é sentido como muito desagradável nas áreas afetadas, mas não causa dor em outro lugar (1). Além disso, o aumento da fragilidade capilar se manifesta com a formação espontânea de hematomas (1).
Classificação do Lipedema
O lipedema pode ser classificado tanto anatomicamente quanto pelo seu estágio (1).
Classificação Anatômica (1):
- Tipo I: Acometimento do umbigo até os quadris.
- Tipo II: Acometimento até os joelhos com presença de tecido gorduroso na parte lateral e inferior dos joelhos.
- Tipo III: Acometimento até os tornozelos com formação de “manguito” de gordura logo acima dos pés.
- Tipo IV: Acometimento dos braços, bastante associado aos tipos II e III.
- Tipo V: Apenas do joelho para baixo.
Classificação por Estágio:
- Estágio 1: Superfície da pele normal, ocorre aumento da gordura no tecido subcutâneo e há presença de nódulos ou bolinhas de gordura, como se fossem pérolas por baixo da pele.
- Estágio 2: Pele irregular, um pouco mais flácida do que o esperado para a idade e com aspecto de celulite, e os nódulos que podem ser palpados ficam maiores.
- Estágio 3: A pele é significativamente mais flácida, com a presença de dobras de pele, o que pode causar dificuldade para caminhar e se movimentar. Além dos nódulos, podem ser palpadas áreas de fibrose, que são como cicatrizes por baixo da pele causadas pela inflamação crônica.
- Estágio 4: Todas as alterações descritas no estágio 3, mais o comprometimento do sistema linfático. O linfedema (comprometimento dos vasos linfáticos) pode ocorrer em qualquer estágio, mas é mais frequentemente encontrado em mulheres com lipedema a partir do estágio 3, quando é chamado de lipo-linfedema.
Barreiras Diagnósticas e Fatores de Progressão
O estabelecimento do diagnóstico do lipedema impõe desafios de elevada complexidade na prática médica devido, primordialmente, à ausência de marcadores biológicos ou exames específicos. Como consequência direta dessa lacuna propedêutica, os diagnósticos clínicos são, de forma frequente, atribuídos erroneamente pelos médicos à obesidade induzida puramente pelo estilo de vida da paciente. Dados de literatura indicam que o hiato temporal médio compreendido entre o surgimento dos primeiros sinais semiológicos e a confirmação diagnóstica definitiva pode atingir até 18 anos.
É fundamental esclarecer que determinados fatores etiológicos e comportamentais atuam de forma sinérgica para agravar ou deflagrar a progressão da patologia, embora não constituam a sua causa primária. Tais fatores englobam:
- Excesso de peso e obesidade;
- Sedentarismo;
- Insuficiência linfática e venosa crônica;
- Terapias e tratamentos hormonais;
- Período gestacional e menopausa.
Tratamento do Lipedema
O tratamento do lipedema busca principalmente o alívio dos sintomas e a prevenção de complicações secundárias, como lesões na pele e artrites, e não a melhoria da aparência das extremidades (1).
Tratamento Conservador
O tratamento conservador é uma abordagem multifacetada, embora diversos autores não o considerem como padrão-ouro (1). Geralmente é composto por:
- Drenagem linfática regular (1).
- Terapia de compressão com roupas adequadas (1).
- Fisioterapia e exercícios (1).
- Psicoterapia (1).
- Controle de peso (1).
Controle de Peso
Pacientes com lipedema têm um risco maior para obesidade (1), e o excesso de peso piora as manifestações do lipedema (1). Apesar de o tecido adiposo subcutâneo no lipedema ser considerado resistente à dieta, a normalização do peso tende a melhorar os sintomas (1).
Alterações Dietéticas
Não existe uma dieta específica para pacientes com lipedema (1). A recomendação geral é uma dieta com déficit calórico visando a redução do peso, e rica em alimentos antioxidantes e anti-inflamatórios (1). Muitos pacientes sofrem com transtornos alimentares, portanto, um acompanhamento psicológico é importante (1).
Tratamento Cirúrgico
Se os sintomas persistirem e impactarem a qualidade de vida do paciente apesar do tratamento conservador, a intervenção cirúrgica (lipoaspiração) pode ser considerada (1). Foi observado que o tratamento cirúrgico melhorou significativamente os sintomas, tanto em relação a critérios subjetivos (percepção de dor, sensação de aperto, formação de hematomas, qualidade de vida) quanto objetivos (circunferências, frequência de tratamentos conservadores) (1).
Acompanhamento e Manejo Contínuo
O acompanhamento antropométrico deve ser realizado regularmente para verificar o curso da desordem e a eficácia do tratamento (1). Medidas como peso, circunferência de cintura, razão cintura/quadril e circunferência dos membros são essenciais (1).
Impacto Psicossocial, Estigmatização e Repercussões na Saúde Mental
O caráter progressivo do lipedema gera repercussões severas na funcionalidade global das portadoras, limitando a mobilidade física, deteriorando a saúde mental e restringindo de forma significativa a participação social. A persistência da dor crônica associada ao ganho ponderal contínuo e progressivo estabelece um ciclo fisiopatológico vicioso, o qual compromete a arquitetura e a qualidade do sono, deprime a autoestima e prejudica os vínculos de interação social. (4)
Evidências demonstram que mulheres acometidas pelo lipedema manifestam níveis de sofrimento psicológico significativamente superiores quando comparadas a indivíduos saudáveis, evidenciando que o impacto da dimensão emocional da doença equipara-se em relevância às limitações de ordem física. (4)
A experiência crônica da doença gera um fenômeno de estigmatização multifacetado:
- Internalização do Estigma e Discriminação: Uma parcela expressiva de pacientes internaliza os preconceitos sociais e médicos, desenvolvendo um viés de peso autocrítico persistente e culpabilizando-se erroneamente pela refratariedade da própria condição de saúde. Esse mecanismo atua como vetor direto para a instalação de sintomatologia depressiva. (4)
- Prevalência e Impacto da Depressão: Estima-se que os quadros depressivos acometam até 59% dos casos clínicos. No âmbito assistencial, a depressão atua como fator de piora do prognóstico, determinando a elevação dos custos médicos hospitalares, o agravamento dos sintomas álgicos e físicos, maior grau de comprometimento funcional, prejuízos na capacidade de autocuidado e redução drástica da adesão terapêutica. (4)
- Paradoxo do Diagnóstico Tardio: Para a maioria das pacientes, a elucidação diagnóstica tardia desperta uma dualidade afetiva. Por um lado, manifesta-se um alívio psicológico imediato decorrente da validação clínica de seu sofrimento; por outro, emerge um sentimento de revolta frente aos anos pretéritos permeados por dores incapacitantes e negligência médica. (4)
Distorções Comportamentais Alimentares e Abordagens Terapêuticas
A marcante resiliência do tecido adiposo característico do lipedema frente aos tratamentos de restrição calórica e à prática de atividade física gera episódios crônicos de frustração. Esse cenário induz as pacientes à adoção de condutas alimentares desadaptativas de alta gravidade, culminando em restrições dietéticas severas e no emprego de métodos purgativos. (4)
A supervalorização da imagem corporal, constructo comumente mapeado na etiologia dos transtornos alimentares, assume contornos exacerbados nessas pacientes em decorrência da realização de dietas restritivas crônicas. Torna-se, portanto, uma necessidade propedêutica imperativa investigar se a insatisfação corporal observada na prática clínica do lipedema provém de uma autocrítica internalizada ou se configura como uma manifestação de fobia de gordura. (4)
No plano das intervenções psicoterapêuticas, os modelos baseados em compaixão emergem como estratégias promissoras para a mitigação do viés de peso internalizado e para o amortecimento de seus efeitos deletérios sobre os quadros de depressão maior. Intervenções estruturadas com foco na autocompaixão atuam de forma eficaz na redução dos sentimentos subjetivos de vergonha corporal, promovendo, por conseguinte, uma diminuição na gravidade clínica da depressão diagnosticada. (4)
Referências Bibliográficas
- KRUPPA, P. et al. Lipedema—Pathogenesis, Diagnosis, and Treatment Options. Deutsches Ärzteblatt International, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.3238/arztebl.2020.0396. Acesso em: 23 jun. 2025.
- BONETTI, G. et al. Dietary supplements for lipedema. Journal of Preventive Medicine and Hygiene, v. 63, n. 2 Suppl 3, p. E169–E173, 2022.
- SHIN, B. W. et al. Lipedema, a rare disease. Ann Rehabil Med., v. 35, n. 6, p. 922–927, 2011.
- KACHANI, Adriana Trejger; JACOBSOHN, Patricia Gipsztejn (Org.). Imagem corporal na prática clínica. Barueri: Manole, 2025.
